O GRIFE – Grupo dos Realizadores Independentes de Filmes Experimentais – nasceu da iniciativa de dois jovens apaixonados por cinema que, no início da década de 1970, decidiram fundar uma empresa dedicada à produção e à formação de cineastas a partir da recém-lançada tecnologia do Super 8. Seus fundadores, Abrão Berman e Maria Luíza de Alencar, identificaram naquele momento as potencialidades da nova bitola, tanto no campo artístico quanto em suas possíveis aplicações comerciais.
Desde o início da década de 1960, Abrão Berman já demonstrava entusiasmo pelo cinema, produzindo seus primeiros filmes em 8mm standard e 16mm, conquistando também seus primeiros prêmios em festivais. Em 1966, com o filme A barreira, que contou com a participação de Regina Duarte, ele recebeu o principal prêmio do Festival de Cinema Amador do Foto – Cine Clube Bandeirante. A repercussão dessa conquista lhe garantiu uma bolsa para estudar durante dois anos no IDHEC (Institut des Hautes Études Cinématographiques), na França, onde atuou em produções de cinema e televisão e frequentou o curso de documentário jornalístico ministrado por Jean Rouch no Musée de l’Homme. De volta ao Brasil em 1969, passou a trabalhar como assistente de direção em produções cinematográficas e publicitárias. Ao constatar que o cinema brasileiro estava distante de suas expectativas, promoveu os primeiros festivais de cinema amador no Cineclube Paiol. Foi nesse contexto que teve contato com a bitola Super 8 e conheceu sua futura parceira no GRIFE, Maria Luíza de Alencar.
Naquele período, Maria Luíza de Alencar, ou simplesmente Malu de Alencar, cursava Comunicação, após ter sido impedida de renovar a matrícula em História na Universidade de São Paulo em razão de seu envolvimento no movimento estudantil durante a Ditadura Militar. O encontro entre os futuros fundadores do GRIFE ocorreu quando Malu procurou Abrão Berman para desenvolver, junto à agência de publicidade em que trabalhava, uma campanha destinada a um de seus clientes. Da parceria entre os dois nasceu, em 1972, o GRIFE, cuja sede foi instalada na Rua Estados Unidos, nº 2240, em São Paulo. O empreendimento envolvia riscos, uma vez que o Super 8 carregava o estigma de ser uma bitola amadora, mas também se mostrava promissor por representar uma tecnologia recente, com amplo campo de experimentação a ser explorado. Havia, sobretudo, um espaço aberto em nichos de mercado inacessíveis ao 16mm e ao 35mm, devido aos seus custos elevados. Nos primeiros anos, as atividades do GRIFE se concentraram em dois eixos principais: o Centro de Estudos de Cinema em Super 8 e o setor comercial, responsável pela produção de filmes encomendados por diferentes empresas.
O Centro de Estudos de Cinema constituiu, desde o início do GRIFE, o projeto mais valorizado por Abrão Berman. Sua afinidade com o ensino já se manifestava naquele período, quando lecionava no departamento de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). Os cursos oferecidos eram estruturados em módulos de aproximadamente dois meses de duração, com turmas distintas nos períodos da manhã, tarde e noite. A programação incluía desde o curso básico, voltado a iniciantes, até formações específicas em realização e animação, além de outras modalidades direcionadas a alunos com maior experiência. Cada turma tinha, no máximo, 15 participantes, que pagavam uma taxa única pela formação, a qual incluía todos os materiais necessários. Aqueles que concluíam os cursos ainda podiam alugar equipamentos do GRIFE para a produção de novos filmes, ampliando assim suas possibilidades de experimentação e prática.
Várias figuras importantes do audiovisual brasileiro passaram pelos cursos do GRIFE, entre elas Anna Muylaert, Jayme Monjardim e o cineasta Guilherme de Almeida Prado. Segundo relatos do próprio Guilherme, que já havia produzido alguns filmes Super 8 antes de fazer qualquer formação: ”(…) acho que fui parar no curso do Abrão para aprender como fazer filme com som.” Algo que ele achava deficitário em sua produção. Ainda mais por ser algo que apresentava considerável dificuldade técnica, como ele mesmo relata: “O som era complicado de colocar, e não era barato. Após a montagem, tinha que colar a faixa magnética, ainda muda, na borda da película. Depois, a gente sonorizava no próprio projetor, que ficava coberto com um travesseiro para que o microfone não captasse o ruído. Tudo era gravado e mixado na hora, direto na pistinha de som magnético que você tinha mandado aplicar. Isso eu aprendi com Abrão.” Provavelmente ele tenha participado de algumas das primeiras turmas do GRIFE, entre 1973 e 1974. De acordo com o que ele se recorda, o curso tinha: “Uns quatro meses, talvez seis meses, no máximo. Não era um curso longo, com certeza, senão eu lembraria. Era um curso básico. E, no final, você fazia um curta-metragem.”
Além da escola, o GRIFE também tinha um setor comercial, que rapidamente conquistou destaque ao atender às demandas de seus contratantes, em sua maioria agências de publicidade e seus anunciantes. A estratégia de inserção no mercado consistiu em substituir os tradicionais audiovisuais — sequências de slides acompanhadas de trilha sonora e, ocasionalmente, locução — pelo uso do Super 8 em diferentes tipos de produção. Nesse formato, a empresa realizou filmes de treinamento corporativo, institucionais, testes publicitários, materiais didáticos e registros de eventos. Entre seus clientes figuravam empresas como Nestlé, General Motors, Olivetti, Rede Globo de Televisão e Philips do Brasil.
Paralelamente, a sede do GRIFE também se configurava como espaço cultural, funcionando como galeria de arte e recebendo exposições de artistas plásticos, fotógrafos e cineastas. O local abrigava festas, vernissages e diversas atividades culturais, reunindo em torno da empresa um público expressivo ligado a diferentes áreas da arte em São Paulo. Dessa forma, o GRIFE consolidou-se como um polo de encontro e aglutinação para interessados em cinema, fotografia, artes visuais e manifestações afins.
A primeira grande realização do GRIFE ocorreu em parceria com Aracy Amaral, em 1973, com a organização da ExpoProjeção 73. O evento constituiu um marco no cenário das exposições de arte brasileira do início da década de 1970, ao reunir produções em Super 8, audiovisuais elaborados com slides e obras sonoras. Pioneira em seu formato de mostra, a exposição abriu espaço para que diversos artistas brasileiros interessados no suporte cinematográfico apresentassem seus trabalhos. Participaram nomes como Antonio Dias, Antonio Manuel, Iole de Freitas, Lygia Pape, Mario Cravo Neto, Raymundo Colares, Marcelo Nitsche, Claudio Tozzi, Rubens Gerchman, entre outros.
Como atividade complementar, Abrão Berman — reconhecido como o “papa do Super 8” no Brasil em razão das inúmeras iniciativas que promoveu em torno da bitola — lançou, em 1975, em parceria com a TV Cultura de São Paulo, o programa Ação Super 8. Conhecido simplesmente como Ação, o programa permaneceu no ar até 1981, tornando-se um canal fundamental de comunicação entre realizadores e entusiastas do Super 8 ao longo de quase seis anos ininterruptos.
Entretanto, a iniciativa do GRIFE que alcançou maior repercussão e deixou marca mais definitiva na produção superoitista brasileira foi a promoção os Super Festivais Nacionais do Filme Super 8, realizados entre 1973 e 1983. O evento mobilizava uma parcela expressiva da juventude paulistana e nacional, ao mesmo tempo em que estabelecia vínculos com o setor comercial ligado a essa produção cultural. Graças a isso, seus organizadores firmaram parcerias com lojas de equipamentos cinematográficos, empresas de importação e fornecimento de insumos, além de veículos de imprensa de grande circulação. Entre os apoiadores estiveram as Lojas Fotóptica, de Thomaz Farkas, a Embrafilme, a Kodak, entre outros.
No mesmo período, apenas alguns eventos podem ser comparados em importância aos Super Festivais, como as Jornadas de Curta-Metragem da Bahia (BA), os festivais de Curitiba (PR) e Campinas (SP), e o espaço dedicado ao Super 8 nos Festivais de Cinema de Gramado (RS).
O Super Festival do GRIFE consolidou-se como a mostra mais duradoura dedicada exclusivamente ao Super 8 no Brasil. Por sua dimensão e visibilidade, tornou-se, senão a maior, certamente uma das principais vitrines para a divulgação da produção superoitista nacional. Ao longo de suas 11 edições, reuniu centenas de realizadores e interessados na bitola, sendo ponto de passagem para diversos cineastas e produtores audiovisuais que, mais tarde, viriam a se destacar no cenário brasileiro. Muitos deles também participaram de outras iniciativas organizadas pelo GRIFE.
A estrutura do festival incluía a mostra principal — voltada aos filmes selecionados para competição —, além de mostras paralelas de produções não selecionadas, mostras informativas e exibições internacionais. A partir da sexta edição, em 1978, o evento incorporou ainda um seminário de estudos e debates sobre o cinema Super 8, abordando temas como cinema alternativo, curta-metragem, distribuição e perspectivas de profissionalização.
Durante mais de uma década de existência, o festival contou também com a presença de nomes relevantes do cenário internacional da bitola, como o norte-americano Lenny Lipton, o venezuelano Germán Carreño e a canadense Sheila Hill, entre outros. Entre elogios e críticas, as edições foram marcadas tanto pela oscilação na qualidade dos filmes exibidos quanto pelas polêmicas em torno dos critérios de seleção e das decisões tomadas pelo júri oficial.
Guilherme de Almeida Prado frequentou diversas edições dos Super Festivais, inclusive inscrevendo filmes e participando de equipes técnicas de outras realizações. Em 1975, no terceiro festival, ele inscreveu Exercício de espera. Além desse filme, também fez câmera para Comercial dirigido por Eduardo Sayegh, e co-dirigiu O nosso homem, juntamente com Mário Sérgio Dorsa e João Francisco Malzone. Este último, inscrito mas não selecionado para essa edição do certame.
Além da produção de Guilherme, alguns dos filmes mais relevantes produzidos em Super 8 no Brasil passaram pelo festival do GRIFE, entre eles: Declaração (1974), São Paulo-SP, de Otoniel Santos Pereira; Homo Sapiens (1974), Rio de Janeiro-RJ, de José Antonio Tauil; Paisagem (1974), São Paulo-SP; Faculdades Zacharias (1975), São Paulo-SP, de Alex Fleming; Os cinemas estão fechando (1977), São Paulo-SP, de Abrão Berman; Brabeza (1978), Salvador-BA, de José Umberto e Robinson Roberto; Epílogo (1978), Campinas-SP, de Claudinê Perina Camargo; Foi pena q… (1978), Curitiba-PR, dos Irmãos Wagner; Terminando (1978), Porto Alegre-RS, de Carlos Roberto Schmidt; Veneta (1978), São Paulo-SP, de Flávio Del Carlo; Danielle, carnaval e cinzas (1979), Curitiba-PR, de José Augusto Iwersen; Jogos frutais frugais (1979), Recife-PE, de Jomard Muniz de Britto; Lin e Katazan (1979), Salvador-BA, de Edgar Navarro; A última essência (1980), Rio de Janeiro-RJ, de Francisco Simões; Gratia plena (1980), São Paulo-SP, de Carlos Porto de Andrade, Jr. e Leonardo Crescenti Neto; Bailado (1980), Campinas-SP, de Henrique de Oliveira Jr.; Voragem (1980), Salvador-BA, de Paulo Sá Vieira e Cícero Bathomarco; Em busca do ouro (1981), São Paulo-SP, de Moysés Baumstein, entre muitos outros.
Com a chegada do videocassete e das primeiras câmeras de vídeo, no final da década de 1970 e início da de 1980, houve um rápido declínio no mercado de insumos para o Super 8. Muitos realizadores migraram para o vídeo, enquanto outros, que desejavam continuar trabalhando com a bitola estreita, foram desestimulados pelo aumento expressivo dos custos de produção e pela dificuldade em obter filmes virgens e serviços de revelação. O próprio GRIFE foi diretamente afetado, e seus festivais passaram a registrar esvaziamento crescente. A última edição ocorreu em 1983, mesmo ano de estreia do Festival de Vídeo Brasil, que logo se consolidaria como um dos eventos mais importantes dedicados ao vídeo no país.
No início de 1984, Abrão Berman anunciou o encerramento das atividades do GRIFE e a devolução da sede da empresa. Ironia do destino, o espaço passou a abrigar um dos primeiros videoclubes do país, a Omni Vídeo. Apesar do recuo, Berman jamais deixou de acreditar no potencial do Super 8. Seguiu trabalhando no campo audiovisual, mas não conseguiu manter vivas as atividades ligadas à bitola. Grande articulador e produtor cultural, acabou, contudo, não acompanhando as transformações tecnológicas impostas no início da década de 1980. Faleceu relativamente jovem, no início dos anos 1990, de causas não divulgadas pela família.
Nessa mesma época, Guilherme de Almeida Prado já havia se afastado do universo Super 8, dedicando-se à carreira no cinema profissional. Ele estava finalizando as filmagens de seu segundo longa-metragem, Flor do desejo (1984), e consolidando sua trajetória na Boca do Lixo, após o sucesso de estreia com As taras de todos nós (1981). Além disso, frequentava como ouvinte os cursos de cinema na ECA-USP, onde aproveitava para estudar técnicas avançadas de montagem e linguagem cinematográfica, além de realizar um curta em 16mm que nunca chegou a ser finalizado. Já na segunda metade da década de 1970, seu foco estava voltado completamente para o cinema de longa-metragem e para a narrativa ficcional, distanciando-se do circuito do Super 8 em definitivo.
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SOBRE O AUTOR

Flavio Rogério Rocha
Doutorando em História na Universidade Federal do Paraná, mestre em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos, é especialista em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná e graduado em História pela Universidade Federal do Paraná. Pesquisa os desdobramentos da produção de filmes na bitola Super 8 no Brasil durante a década de 1970. É fotógrafo, videomaker e documentarista, tendo realizado diversos projetos nas áreas de artes, cultura popular e música.
